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sexta-feira, 4 de março de 2016

Quase 16 milhões de meninas nunca irão à escola, diz Unesco

Meninas durante aula em vilarejo do Iêmen, dia 02/02/2016

Quase 16 milhões de meninas entre 6 e 11 anos nunca irão à escola, de acordo com levantamento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O número é duas vezes maior que o de meninos. Entre eles, no mundo, 8 milhões nunca frequentarão as salas de aula.

Os números estão no Atlas de Desigualdade de Gênero na Educação, disponível na internet, divulgado pela Unesco em razão do Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março.

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De acordo com a Unesco, as meninas são as primeiras a ter negado o direito à educação. A desigualdade segue principalmente nos Estados Árabes, na África Subsaariana e na Ásia Meridional e Ocidental.

Na África Subsaariana, 9,5 milhões de meninas nunca entrarão em uma sala de aula. No caso dos meninos, serão 5 milhões.

Na Ásia, 80% das meninas que estão atualmente fora da escola nunca receberão educação formal, o que equivale a 4 milhões.

Entre os meninos, menos de 1 milhão nunca receberá educação formal, o que equivale a 16% daqueles que estão hoje fora da escola.

Em relação aos Estados Árabes, a Unesco diz que as meninas são a maioria das milhões de crianças fora da escola, mas não é possível precisar quantas, devido aos conflitos na região, que dificultam a elaboração de estatísticas exatas.

O Brasil aparece no Atlas como um país sem dados estatísticos específicos sobre gênero na educação básica.

As informações são do Instituto de Estatística da Unesco. Anualmente o instituto faz um levantamento do número de crianças fora da escola e calcula as probabilidades futuras de terem acesso às salas de aula, caso as circunstâncias atuais sejam mantidas.

As projeções podem variar ano a ano.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Eliminar as desigualdades de gênero no acesso à escola é um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que devem ser cumpridos até 2030.

Atualmente, uma em cada oito crianças entre 6 e 15 anos está fora da escola e as meninas são as primeiras a serem excluídas. Mais de 63 milhões de meninas no mundo inteiro não recebem educação formal.

"Nunca alcançaremos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável se não conseguirmos vencer a discriminação e a pobreza que paralisam  a vida das meninas e das mulheres de geração a geração", diz a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, em nota divulgada nessa quarta-feira (2).

"Devemos trabalhar em todos os níveis, desde a base social até os dirigentes mundiais, para fazer da equidade e integração os eixos de toda política, de forma que todas as meninas, sejam quais forem as suas circunstâncias, vão à escola, prossigam os estudos e cheguem a ser cidadãs emancipadas".

Os ODS são uma agenda global que tem a finalidade de promover o desenvolvimento social, a proteção ambiental e a prosperidade econômica em todo o mundo.

Os objetivos começaram a valer este ano. Ao todo, são 17 objetivos e 169 metas que foram acordados pelos países-membros em setembro de 2015, em Nova York, na Cúpula das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável.

Como a tecnologia ajudou O Menino e o Mundo chegar ao Oscar

Alê Abreu foi o representante brasileiro no Oscar 2016 com sua animação chamada O Menino e o Mundo. O diretor levou às telas do cinema mundial uma história sobre autodescobrimento que parece ir contra o exibicionismo tecnológico de animações da Disney, como Divertidamente.

Em entrevista a EXAME.com, ele conta que sua ideia inicial era traduzir em imagens o mundo do personagem do longa. “Durante a produção do filme, tentei exercer a liberdade de uma criança ao desenhar, sem a autocrítica do adulto”, explica Abreu.

Para criar os cenários e os personagens, o diretor usou giz de cera, colagem e muito lápis de cor. “Misturei materiais de desenho, sobrepondo tudo de uma maneira muito livre, como fazem as crianças”, diz.

No entanto, para colocar tudo isso na tela do cinema, o diretor brasileiro precisou da ajuda da tecnologia. Ele explica que, após o uso de elementos manuais, quase toda a animação foi feita usando uma caneta digital.

Depois, os desenhos eram impressos e redesenhados numa mesa de luz para ganhar traços e texturas mais reais. Finalmente, eles eram ”scaneados e retornavam ao computador, para retoques e criação de desenhos intermediários, muitas vezes reutilizando partes das reproduções principais”, conta.

Uma das ferramentas utilizadas pelo diretor foi o Photoshop, apesar de o programa da Adobe não ser voltado para a produção de animações. Como O Menino e o Mundo precisou de muito tratamento gráfico e retoques digitais minuciosos, Abreu precisou improvisar com o recurso.

“Descobrimos um atalho que permite deslocar a visualização das camadas, possibilitando desta forma checar com facilidade os movimentos de uma animação, quadro a quadro”, diz o diretor. Assim, "a possibilidade de usar o programa para animação praticamente resolveu esta etapa do trabalho". 

Tecnologia e mão na massa

Abreu conta que quando começou, nos anos 80, as animações eram feitas de uma maneira mais artesanal. “Os desenhos no papel eram xerocados para folhas de acetato transparente que eram pintados no verso”. Além disso, os cenários eram feitos com tinta e lápis de cor.

Segundo o diretor, tudo isso foi sendo substituído pela computação gráfica devido ao desenvolvimento da tecnologia. Contudo, ele sente que “há um movimento de resgate que traz um bom equilíbrio ao uso de todas as ferramentas”.

Foi essa harmonia que Abreu tentou alcançar em O Menino e o Mundo. De acordo com ele, quando a produção chegou na etapa da utilização de um computador, a regra era imaginar o monitor como uma folha de papel. “Poderíamos usar as ferramentas digitais desde que conseguíssemos esta sensação de texturas e cores do papel”, finaliza.

Quando questionado se ele esperava que essa mistura se transformaria em uma indicação ao Oscar, Abreu se mostra humilde: “Nunca imaginei isso”. Porém, quanto à vitória, o diretor foi esperançoso. “Acreditei até o fim, mesmo sabendo que eram 95% de chances de Divertidamente ganhar”.

Familiares de vítimas do voo MH370 querem buscas na África

Destroço encontrado em Moçambique que pode ser do avião desaparecido do voo MH370, dia 03/03/2016

 Uma associação de familiares dos desaparecidos no voo MH370 de Malaysia Airlines pediu nesta quinta-feira a realização de uma busca exaustiva no litoral leste da África, onde no fim de semana passado foram encontrados destroços de um avião que poderia ser o Boeing 777 que sumiu misteriosamente em 2014.

"Buscamos o apoio de recursos navais (das nações do leste da África) que possam rastrear os locais desabitados e áreas pantanosas para que todos os destroços sejam recolhidos e analisados", expressou em comunicado a organização Voice370.

Na aeronave havia 239 pessoas, entre tripulação e passageiros, quando a mesma desapareceu no dia 8 de março de 2014.

Fontes oficiais dos Estados Unidos, próximas da investigação sobre o desaparecimento do avião malaio, informaram sobre a descoberta de um fragmento que presumivelmente pertence a um Boeing 777, o mesmo modelo de aeronave que operava o voo MH370, no litoral de Moçambique.

A peça de metal, de um metro de comprimento, corresponderia a um pedaço de um "estabilizador" horizontal do avião que faz parte das pequenas asas que ficam na parte posterior da aeronave.

O objeto tem escritas as palavras "NO STEP" ('Não pise').

O ministro dos Transportes da Malásia, Liow Tiong Lai, afirmou que os especialistas malaios e australianos trabalham para "verificar" se os destroços encontrados em Moçambique pertencem ao MH370.

"Com base em relatórios anteriores, existe uma possibilidade alta de que os destroços encontrados em Moçambique pertençam a um Boeing 777", publicou Liow em seu perfil no Twitter.

O governo da Austrália, por sua vez, disse que o local da descoberta condiz com os padrões das correntes do Oceano Índico relacionadas com o lugar onde se acredita que o avião caiu.

O avião desapareceu após mudar de rumo em uma "ação deliberada", segundo os especialistas, 40 minutos após ter decolado de Kuala Lumpur rumo a Pequim e que alguém desligou os sistemas de comunicação.

As buscas pela aeronave se concentram em uma área de 120 mil quilômetros quadrados no Oceano Índico, cerca de 1.800 quilômetros a oeste da cidade australiana de Perth.

Em julho do ano passado, as equipes encontraram um fragmento do MH370 na ilha Reunião, a leste de Madagascar, o que supôs o primeiro e único indício tangível de que o avião tinha caído no Oceano Índico.

O desaparecimento do MH370 continua sendo um dos maiores mistérios da história da aviação.

Preços de imóveis em 11 cidades caem em fevereiro

Em fevereiro, o preço dos imóveis caiu em 11 das 20 cidades brasileiras acompanhadas pelo índice FipeZap. As maiores quedas foram registradas em Niterói (-0,79%), Santos (-0,50%) e Salvador (-0,46%). Os preços também caíram no Rio de Janeiro, Distrito Federal, Fortaleza, Recife, Porto Alegre, Curitiba, Vitória e em Campinas.

Em quase todas as cidades a variação de preço foi menor do que a estimativa da inflação para o mês, de 0,95%. Na média, os preços dos imóveis ficaram praticamente estáveis em fevereiro e registraram leve queda de 0,05% se comparados ao mês anterior.

Reajustes abaixo da inflação

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Enquanto a valorização dos imóveis foi de 0,64% nos últimos 12 meses encerrados em fevereiro (menor variação já registrada desde o início da série histórica, em 2008), a inflação, medida pelo IPCA, deve encerrar o período com aumento de 10,41%, de acordo com o Boletim Focus do Banco Central. Ou seja, ao considerar o efeito da inflação, o índice mostra que os imóveis tiveram queda real de preço de 8,55% no período.

A queda real acontece quando o aumento nos preços de um determinado bem ou produto, como é o caso dos imóveis, registra uma alta inferior ao aumento generalizado de preços, medido por índices inflacionários, como o IPCA. Vale ressaltar que a variação real não é a simples diferença entre o preço dos imóveis e a inflação. Para realizar esse cálculo é preciso dividir a variação dos preços pela variação inflação.

Todas as cidades que compõem o índice registraram variações de preços inferiores à inflação nessa mesma base de comparação. Em Belo Horizonte, Curitiba, Rio de Janeiro, Recife, Niterói e no Distrito Federal, os preços registraram queda nominal no período.

As demais cidades incluídas no índice tiveram aumentos de preços abaixo da inflação estimada para o período (1,06%). A exceção foi Florianópolis, na qual os preços subiram 0,96% em fevereiro.

Veja a matéria sobre as tendências para o mercado imobiliário brasileiro em 2016.

Rio e São Paulo têm metro quadrado mais caro

O preço médio do metro quadrado dos imóveis nas 20 cidades do índice FipeZap encerrou fevereiro em 7.609 reais. Rio de Janeiro e São Paulo continuaram a liderar a lista do metro quadrado mais caro. No Rio, o preço médio do metro quadrado terminou o mês a 10.390 reais. Já o valor do metro quadrado em São Paulo atingiu 8.616 reais em janeiro.

Goiânia e Contagem foram as cidades que registraram o preço mais baixo do metro quadrado em fevereiro. Em Goiânia, o valor médio ficou em 4.224 reais e, em Contagem, 3.551 reais. 

Veja na tabela a seguir a variação dos preços dos imóveis à venda nas 20 cidades acompanhadas pelo índice FipeZap em fevereiro, janeiro de 2015 e nos últimos doze meses. A lista foi ordenada da maior para a menor variação no segundo mês do ano.

RegiãoVariação mensal fevereiro/16Variação mensal janeiro/16Variação nos últimos 12 meses
Florianópolis0,96%0,94%11,02%
Santo André0,56%0,61%5,35%
Goiânia0,46%0,44%3,30%
Vila Velha0,41%0,53%4,23%
São Caetano do Sul0,34%0,38%3,66%
Contagem0,21%0,08%2,86%
São Bernardo do Campo0,10%0,14%2,40%
São Paulo0,10%0,02%1,60%
Belo Horizonte0,07%0,17%-0,45%
Campinas-0,03%-0,07%2,51%
Índice FipeZap Ampliado (20 cidades)-0,05%-0,08%0,64%
Rio de Janeiro-0,11%-0,28%-2,37%
Vitória-0,11%-0,37%5,15%
Curitiba-0,14%-0,29%-0,06%
Fortaleza-0,15%0,29%4,92%
Brasília-0,20%-0,26%-1,81%
Recife-0,21%-0,34%-1,06%
Porto Alegre-0,24%0,05%3,78%
Salvador-0,46%-0,65%0,67%
Santos-0,50%-0,27%3,06%
Niterói-0,79%-0,35%-3,28%
Veja na tabela abaixo o preço médio do metro quadrado anunciado em cada cidade em fevereiro:
RegiãoPreço médio do metro quadrado (R$)
Rio de Janeiro10.390
São Paulo8.616
Brasília8.557
Média nacional7.609
Niterói7.478
Florianópolis6.418
Recife6.043
Fortaleza5.909
São Caetano do Sul5.887
Belo Horizonte5.851
Porto Alegre5.515
Vitória5.465
Campinas5.378
Curitiba5.278
Santo André5.197
Santos5.062
São Bernardo do Campo4.892
Salvador4.661
Vila Velha4.477
Goiânia4.224
Contagem3.551

O Índice FipeZap tem dados disponíveis sobre São Paulo e Rio de Janeiro desde janeiro de 2008. Para Belo Horizonte, a série histórica começa em maio de 2009. Para Fortaleza, em abril de 2010; para Recife em julho de 2010; e para o Distrito Federal e Salvador, em setembro de 2010.

Entre as cidades incluídas mais recentemente, que compõem o Índice FipeZap Ampliado, os municípios do ABC Paulista e Niterói têm dados disponíveis desde janeiro de 2012. Vitória, Vila Velha, Florianópolis, Porto Alegre e Curitiba têm séries históricas iniciadas em julho de 2012. O índice FipeZap Ampliado foi lançado em janeiro de 2013.

O indicador elaborado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) em parceria com o site de classificados Zap Imóveis, acompanha os preços do metro quadrado dos imóveis usados anunciados na internet, que totalizam mais de 290 mil unidades por mês.

Além disso, são buscados também dados em outras fontes de anúncios online. A Fipe faz a ponderação dos dados utilizando a renda dos domicílios, de acordo com levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O fundo Pátria vai se entender com seus 70 sócios na Alliar?

 Terni, presidente da Alliar, e médicos-sócios:

Todos os números relacionados à rede de laboratórios Alliar apresentam uma curva de ascensão espantosa. Criada em 2011, a empresa controlada pelo fundo de investimento Pátria já comprou 23 laboratórios de diagnóstico por imagem. Em 2015, a rede faturou 950 milhões de reais e tornou-se o terceiro maior grupo de medicina diagnóstica do Brasil, atrás dos líderes Dasa e Fleury.

Na formação da Alliar, outro número se multiplicou de maneira impressionante: a quantidade de sócios. Hoje, o Pátria detém quase 27% das ações — o restante pertence a 75 médicos, grupo que tende a crescer com novos negócios.

O mais recente já foi aprovado pelo Cade (órgão que regula a concorrência no país) e está em fase final de negociações: a incorporação do baiano Delfin, maior grupo de diagnóstico por imagem da Região Nordeste. “Todas as decisões importantes são tomadas por con­senso”, afirma o executivo Fernando Terni, presidente da Alliar.

É a primeira vez que o Pátria segue um modelo de integração, digamos, tão inclusivo. Em outros negócios, como a formação do Dasa e da rede de ensino Anhanguera, valeu a premissa de manter poucos sócios para acelerar decisões. No caso da Anhanguera, o Pátria chegou a ter 82% do capital — e, após 30 aquisições, só sobraram os sócios da primeira universidade adquirida.

É o que se vê na maior parte dos casos de consolidação. “Em geral, os fundos compram a maioria das ações para ter mais poder de decisão e escolhem apenas uma empresa de destaque para manter o sócio-fundador na gestão”, diz Viktor Andrade, especialista de fusões e aquisições da consultoria EY.

Trilhar o caminho mais difícil foi uma condição imposta ao Pátria pelos sócios iniciais. De outra maneira, os médicos não topariam fechar negócio. Em 2010, os donos de quatro redes de laboratórios do interior dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, diante da expansão do Dasa e do Fleury, decidiram unir suas operações. O grupo considerou a proposta de 12 investidores.

Entre outras razões, o Pátria foi escolhido por concordar em dar voz aos médicos nas decisões relacionadas à qualidade dos serviços. O acordo demorou nove meses para ser concluído e determina que o Pátria tem soberania em todas as decisões financeiras. Mas decisões mais técnicas, como a escolha de novas máquinas e equipamentos para os laboratórios, é feita por um comitê médico.

“Nenhum sócio pode tomar decisões sozinho, o que nos leva a negociar o tempo todo”, diz Fernando Pereira, diretor de expansão da Alliar e sócio do Pátria.
A opção pelo modelo não se guiou apenas pela exigência dos médicos. Os sócios do Pátria perceberam que manter o equilíbrio entre a visão operacional e o ponto de vista técnico seria vital. Os laboratórios de análises clínicas funcionam quase sob uma lógica industrial. Amostras de sangue são levadas para grandes centros onde máquinas cuidam de boa parte do trabalho.

Já nos diagnósticos por imagem, como o de ultrassonografia, que compõem 90% do faturamento da Alliar, o exame de cada paciente tem de ser analisado individualmente por um médico. Qualquer mudança atabalhoada pode arruinar a reputação do negócio. “Dependemos integralmente de bons médicos, porque nosso produto final é o laudo do especialista”, diz Pereira, do Pátria.

A ideia é evitar uma trajetória semelhante à do Dasa. Em 2011, três anos depois da ­venda da participação do Pátria na companhia, uma pesquisa com 400 pessoas, entre pacientes e médicos, revelou que a maioria achava a qualidade dos laudos do laboratório Delboni, principal marca do Dasa, questionável.

Na base das decisões consensuais, os sócios afirmam que até agora foi possível cortar custos sem descontentar os médicos. Um exemplo disso é a criação de uma equipe única de técnicos operadores capazes de operar remotamente as máquinas que realizam os exames. Eles foram concentrados em cinco salas de comando no país, conectadas pela internet a cada laboratório.

Como se alternam no atendimento de todas as unidades, os técnicos não ficam mais ociosos entre um exame e outro. Em vez de atender dois pacientes por hora, agora atendem três. O novo formato também resolveu o problema de escassez de mão de obra em regiões como Parauapebas, no Pará. O rearranjo ajudou a diminuir em 70% o índice de reconvocação de pacientes devido a exames malfeitos.

“A automação permite que os técnicos consultem os melhores especialistas da rede mais rapidamente para tirar dúvidas”, diz Juan Cevasco, diretor médico da Alliar.

Para verificar o desempenho dos laboratórios, os gestores acompanham em tempo real indicadores como quali­dade de atendimento num painel instalado na sede da companhia. Um centro de serviços compartilhados montado em Belo Horizonte concentra áreas de apoio, como finanças e RH. A companhia estima que os ganhos de sinergia gerem uma economia de 25% nos custos de cada empresa incorporada.

Os sócios afirmam acreditar tanto na gestão compartilhada que pretendem perpetuá-la com um plano de sucessão. O desempenho dos cerca de 1 000 médicos do corpo clínico dos laboratórios é avaliado e os 20% melhores podem comprar ações da empresa. Até agora 20 médicos já foram incorporados à sociedade dessa maneira.

O modelo, no entanto, não é unânime. “Os médicos podem dar sua opinião nos comitês, mas a decisão final sempre é do Pátria”, afirma o ex-sócio Rogério de Aguiar Ferreira, líder do grupo dos quatro primeiros laboratórios que deram origem à Alliar. Ele vendeu sua participação — na época, de 36% — no ano seguinte, depois da formação da empresa.

O equilíbrio dessa governança tende a ficar mais complexo à medida que ingressam sócios de peso. Hoje, depois do Pátria, os sócios com maior concentração individual são Sergio Tufik e seu primo Roberto Kalil, que juntos detêm quase 50% de participação. Os dois fundaram há 18 anos o laboratório paulista CDB, adquirido pela Alliar em novembro de 2014 e que já representa 40% do faturamento da companhia.

Após a compra, a sede do Alliar foi transferida para o prédio em que funciona o CDB, na zona sul de São Paulo. O genro e o filho de Kalil tornaram-se, respectivamente, diretor médico e diretor comercial da Alliar. Com o tempo, o risco é que os minoritários se sintam alijados.

Na experiência passada do Pátria no Dasa, minoritários apontaram ine­fi­ciên­cia nas operações porque prestadores de serviços eram parentes do médico e sócio Caio Auriemo. “Só não estou 100% contente com o projeto porque há uma inevitável diluição de poder”, diz Cláudio Ramos, diretor médico do Cedimagem, de Juiz de Fora, no interior de Minas Gerais.

Ramos, um dos quatro sócios iniciais, tem 6% de participação na Alliar. Ainda assim, ele e outros sócios ouvidos  afirmam estar satisfeitos com o modelo de participação em comitês e no conselho (veja quadro). Em geral, o Pátria costuma vender a participação nas empresas que controla de sete a dez anos depois da primeira fusão. No caso da Alliar, ainda há pelo menos dois anos pela frente.

Enquanto isso, o foco é crescer mais. O fundo obteve um financiamento de 100 milhões de reais no BNDES para estender a operação aos 26 estados brasileiros — faltam 18. Além das redes compradas, a companhia abriu 32 unidades. Até 2017, o plano é inaugurar outras 20 com as várias marcas regionais. Aquisições continuam na mira. Diante da ambição do Pátria, o grupo de mais de 70 sócios parece pequeno.

Por que estudar de noite pode ser (muito) pior do que de dia

sala de aula

 Estudar de dia ou de noite? A resposta para esse simples questionamento pode ser decisiva para o nível de qualidade da formação educacional de um aluno.

De acordo com uma análise do Instituto Ayrton Senna, o desempenho dos alunos do noturno do Ensino Médio na Avaliação Nacional da Educação Básica (ANEB) é equivalente a um ano e meio de atraso em relação ao nível apresentado pelos estudantes do diurno. 

Em outras termos: é como se os alunos do noturno que estão prestes a se formar no terceiro ano do Ensino Médio ainda estivessem nos primeiros meses do segundo ano. 

No Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), essa tendência se repete. A média das notas de quem estuda durante o dia é até 5% maior do que entre os alunos do noturno, segundo cálculo de Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. 

“O ensino médio noturno é o grande desafio da educação no Brasil”, afirma o especialista. “Nós precisamos implementar políticas públicas que cuidem desse aluno, caso contrário, ele pode ter sérios problemas no futuro”. 

De cada 10 brasileiros matriculados no Ensino Médio no Brasil, 4 estudam no período noturno. Entenda, abaixo, por que eles devem terminar o ensino básico com uma formação inferior a de quem estuda durante o dia. 

1. 33% dos professores do noturno dão aulas para disciplinas diferentes de sua formação 

Um levantamento divulgado nesta quarta-feira (2) pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) revela que há um percentual expressivo de docentes que dão aulas em disciplinas diferentes daquela de sua formação. 

De acordo com o coordenador de pesquisas do Cenpec, Antônio Augusto Gomes Batista, a qualificação dos docentes é um dos principais fatores que impactam na qualidade do ensino.

“O grande problema é que o recrutamento de professores para o período noturno é muito menos atrativo do que em outros turnos”, diz. “Os professores com mais qualificação tendem a ir para as instituições de ensino integral, onde o salário é dobrado, o horário é melhor e a localização é mais acessível. São condições muito desiguais”, completa. 

O pesquisador explica que, na maioria dos casos, a única opção é aceitar que um mesmo professor ministre mais de uma disciplina. 

2. 4 em cada 10 professores do noturno possuem uma carga de trabalho elevada

Ainda segundo a pesquisa do Cenpec, 42% dos professores que lecionam no período noturno atendem até 400 alunos distribuídos em dois turnos e em até duas escolas diferentes. O docente que trabalha com até 25 alunos em uma única instituição representa apenas 1,7% dessa taxa.

3. RJ lidera em disparidade entre os turnos

O Rio de Janeiro é o estado com a maior disparidade de desempenho médio entre os alunos do diurno e do noturno na Avaliação Nacional de Educação Básica (Aneb) de 2013, segundo dados mapeados pelo Instituto Ayrton Senna

Em uma escala de proficiência em português que vai de 150 a 375 ou mais, os alunos do noturno do estado somaram 36 pontos a menos do que os alunos do diurno. No exame de Matemática, a diferença do nível de proficiência entre os turnos foi de 31 entre os estudantes do estado. 

Mesmo assim, o desempenho dos alunos do noturno do Rio de Janeiro em português está entre os seis melhores entre os estudantes nas mesmas condições de outras unidades da Federação. 

“Esses dados mostram que a educação no Brasil peca muito em qualidade. Os índices ainda são muito baixos”, diz Mozart. “O Ensino Médio precisa passar por uma verdadeira revolução”.

No gráfico abaixo, o eixo vertical mostra o desempenho de português na escala de proficiência e o horizontal, a diferença de pontos entre os alunos do noturno e diruno de cada estado: 


Veja o ranking das melhores pontuações em Língua Portuguesa e Matemática dos alunos do Ensino Médio na Avaliação Nacional de Educação Básica (Aneb) de 2013: 

EstadosPontos em Língua PortuguesaPontos em Matemática
Santa Catarina259,2271,1
São Paulo256,9258,1
Mato Grosso do Sul254,5257,9
Rio Grande do Sul249,6263,4
Rondônia243,6255,5
Minas Gerais243,5253,0
Rio de Janeiro242,8246,9
Acre242,7244,2
Roraima242,3242,9
Goiás239,9248,8
Amapá239,1238,3
Paraná238,4248,7
Mato Grosso238,3246,1
Espírito Santo237,4250,7
Pernambuco236,1241,4
Distrito Federal231,9241,0
Tocantins229,9237,0
Ceará228,4235,3
Piauí227,6235,0
Paraíba225,6232,5
Amazonas223,9230,8
Rio Grande do Norte223,2229,3
Pará222,5228,9
Maranhão222,4228,8
Alagoas220,9230,5
Sergipe220,8232,5
Bahia213,1228,8

Lula é alvo de operação da Lava Jato; acompanhe

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acena da janela da sede do PT em São Paulo, dia 04/03/2016

 Desde às 6h da manhã desta sexta-feira (4), a Polícia Federal cumpre a 24ª fase da Operação Lava Jato que tem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um dos alvos. No total, foram expedidos 33 mandados de busca e apreensão e 11 de condução coercitiva nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

Segundo a procuradoria, as investigações ocorrem justamente para comprovar ou não a participação do ex-presidente no esquema. 

Em declaração nesta tarde, Lula disse ter ficado indignado com a ação do MPF, já que estava disposto a colaborar com as investigações.

"Eu estou indignado também com o comportamento de determinados meios de comunicação", afirmou o ex-presidente. "Hoje quem incrimina é uma manchete."

Lula voltou a negar ser proprietário dos imóveis investigados pelos procuradores. "Eu uso a de um amigo, porque os inimigos não me oferecem", disse sobre o sítio em Atibaia. 

A respeito do tríplex no Guarujá, Lula afirmou que o dia que encontrarem seu nome na escritura, podem chamar o apartamento de seu. 

"Se eu não comprei e não paguei, não é meu", afirmou o ex-presidente. "Quero saber quem vai me dar esse apartamento quando o processo terminar. Vai ser a Globo? Vai ser o Ministério Público?" 

Por fim, Lula disse que se tornou uma dos maiores palestrantes do mundo, por tudo o que fez pelo Brasil — em especial a respeito dos avanços sociais em seu governo. O preço das palestras, portanto, foi baseado naquele que o ex-presidente via como semelhante, o ex-presidente norte-americano Bill Clinton.

"Quem é o que cobra mais caro? É o Bill Clinton? Vamos cobrar que nem ele", disse. "Bill Clinton foi meu paradigma."

A VERSÃO DA PF

O objetivo da operação foi destrinchar os ganhos da LILS Palestras e do Instituto Lula, controladas pelo petista. Entre 2011 e 2014, ambas teriam recebido R$ 30 milhões, boa parte repassado por empreiteiras com participação já comprovada no âmbito da operação.

De acordo com o procurador Carlos Fernando, cerca de 60% das doações ao Instituto Lula e 47% dos rendimentos com palestras foram feitas por Camargo Corrêa, Odebrecht, Queiroz Galvão, UTC, Andrade Gutierrez e OAS.

"Estamos investigando também vantagens indevidas pagas ao ex-presidente, que é outro aspecto do crime de corrupção", diz o procurador.

Isso porque OAS e Odebrecht, além de serem doadoras, seriam as responsáveis pelas altas cifras despendidas nas reformas no tríplex do Guarujá e do sítio em Atibaia. Pesa sobre ambos os imóveis a suspeita de que se trata de pagamento de favorecimentos ilícitos e, consequentemente, lavagem dinheiro.

Há indícios também de que duas empresas da família receberam recursos do Instituto Lula por motivos desconhecidos. Como as maiores doadoras do Instituto são empreiteiras, o MPF investiga se houve triangulação para favorecimento indireto. Foram dois repasses: R$ 1 milhão e R$ 90 mil, segundo o procurador.

"Ainda estamos em investigação", disse o Carlos Fernando. "Não há nenhuma conclusão a respeito."

Foi revelado pelos investigadores que houve quebra do sigilo bancário e fiscal do presidente Lula para auxiliar a checagem dos fatos, medida que corre em sigilo de justiça.

PEDIDO DE PRISÃO

Segundo o procurador Carlos Fernando, não foi pedida a prisão do ex-presidente, pois não há pressupostos necessários. Até agora, são "indicativos fortes". "As investigações não são conclusivas para pedir a prisão", ele diz.

Lula foi ouvido no Aeroporto de Congonhas das 8 horas da manhã até próximo do meio dia.

Os pedidos de busca e apreensão chegaram ao juiz federal Sérgio Moro há 15 dias, não há, portanto, qualquer relação com as delações do senador Delcídio do Amaral, revelados pela revista Istoé.

O procurador justifica a condução de ex-presidente dizendo que se fosse marcada uma oitiva com antecedência, haveria problemas com segurança. A evidência são as manifestações que ocorrem em São Bernardo e no Aeroporto de Congonhas.

O Ministério Público Federal trouxe detalhes da ação de hoje em coletiva de imprensa de 1h15.

O que o mundo está falando sobre Lula neste momento

Prédio sede do jornal The New York Times em Nova York, Estados Unidos

 A 24ª fase da operação Lava Jato, que tem entre seus alvos o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já repercute na mídia mundial.

A BBC, no Reino Unido, colocou a notícia em destaque na sua página inicial como “Busca na casa do ex-líder brasileiro Lula". O ex-presidente é descrito como uma "personalidade bem-vista", mas que sua popularidade foi atingida com as investigações recentes de corrupção.

Página da BBC sobre Lula 

No jornal Clarín, da Argentina, a Lava Jato é mencionada como uma operação que investiga a “megafraude da Petrobras”. No texto, ele relaciona a operação com a acusação de Delcídio Amaral do envolvimento de Lula no esquema de corrupção da Petrobras.

Nos Estados Unidos, a condução coercitiva de Lula para depoimento na PF aparece no The New York Times, Business Insider, The Guardian e na Bloomberg, que destaca o acontecimento como o “mais dramático” até agora na investigação.

Para o Financial Times, essa fase da Lava Jato é "a maior ameaça até agora ao frágil governo da protegida [de Lula], a presidente Dilma Rousseff". Porém o Wall Street Journal esclarece que, apesar disso, não foram feitas acusações contra o ex-presidente.

Bloomberg / Reprodução

Print Bloomberg Lula

Na Espanha, o El País chama a fase como “um marco” na investigação do caso Petrobras. Para o jornal, os efeitos da operação podem ser "catastróficos para o governo e para Lula, que tinha esperanças de ser candidato novamente à presidência em 2018".

A publicação também destaca a crescente pressão e o cerco contra o ex-presidente, lembrando da festa de aniversário do PT, em que o Lula teria expressado temores de uma quebra de sigilo bancário pela Justiça.

 


O mundo está tentando esquecer o século 20?

Guerra em Londres

 O historiador Tony Judt, morto em 2010, foi um dos pensadores mais brilhantes de sua geração. O livro "Quando os Fatos Mudam" traz seus melhores ensaios. 

Mal deixamos o sé­cu­lo 20 para trás, suas controvérsias e suas rea­lizações, seus ideais e seus medos já começam a deslizar para a área cinzenta marcada pelas distorções da memória. No Ocidente, apressamo-nos a nos livrar, sempre que possível, da bagagem econômica, intelectual e institucional do século 20.

No rastro dos acontecimentos após a queda do Muro de Berlim, em 1989, tomados por uma confiança ilimitada e por não muita reflexão, largamos o século 20 para trás e subimos ousadamente a bordo de seu sucessor, animados por meias verdades convenientes: o triunfo do Ocidente, o fim da história, o momento unipolar americano, a marcha inexorável rumo à globalização e ao livre mercado.

Na sequência do 11 de setembro de 2001, mais de uma vez me chamou a atenção uma perversa insistência em não compreender o contexto de nossos atuais dilemas; em não ouvir com atenção algumas das cabeças mais ponderadas das décadas anteriores; em se esforçar ativamente para esquecer e não para lembrar; em negar a continuidade e proclamar o novo em todas as oportunidades possíveis. 

Talvez isso tudo não seja assim tão surpreendente. O passado recente é o mais difícil de conhecer e compreender. Além disso, o mundo realmente passou por uma notável transformação desde 1989, e transformações como essas são sempre perturbadoras para os que se lembram de como as coisas eram.

As memórias da Europa pré-Primeira Guerra Mundial costumavam descrever (e ainda descrevem) uma civilização perdida, um mundo cujas ilusões tinham sido literalmente explodidas. Ainda que o mundo tenha mesmo mudado após 1918, o pós-guerra foi influenciado pela experiência e pelo pensamento do século 19.

A economia neoclássica, o liberalismo, o marxismo (e sua cria, o comunismo), ‘a revolução’, a burguesia e o proletariado, o imperialismo e o ‘industrialismo’ — as pedras fundamentais do mundo político no século 20 — foram todos produtos do século 19. Hoje, ao contrário, a presença do século passado se faz sentir de forma bem mais leve.

O século 20 que optamos por comemorar parece curiosamente fora de foco. A impressão é que tudo foi deixado para trás, que agora podemos avançar — sem o estorvo representado pelos erros do passado — rumo a uma era diferente e melhor. Essa celebração, contudo, não aprofunda nossa avaliação e nossa consciência em relação ao passado.

Em vez de ensinarmos história, levamos as crianças para visitar museus e monumentos. Pior ­ainda: nós as encorajamos a ver o passado — e suas lições — tendo como base o sofrimento de seus antepassados.

Atual­mente, a interpretação do passado recente é composta de fragmentos variados de passados separados, cada um deles (judeu, polonês, sérvio, armênio, alemão, americano-asiático, palestino, irlandês, homossexual…) marcado por sua própria condição de vítima, de modo a enfatizar sua singularidade. O mosaico resultante não nos vincula a um passado comum, mas, ao contrário, nos separa dele.

Esse caráter estrangeiro do passado em parte se deve à pura velocidade com que aconteceram as mudanças. A ‘globalização’ realmente representou um aumento da quantidade, em detrimento da qualidade, na vida das pessoas num grau que seria inimaginável para nossos avós. A expansão das comunicações oferece um exemplo disso.

Hoje, a maioria das pessoas fora da África subsaariana tem acesso a uma infini­dade de dados. As ideias e as informações, porém, são fragmentadas. O resultado é que temos cada vez menos em comum com as outras pessoas. Mas o que há de equivocado na pressa com que deixamos o século 20 para trás? Pelo menos nos Estados Unidos, esquecemos o significado da guerra.

Existe um motivo para isso. Em grande parte da Europa, da Ásia e da África, o século 20 foi vivido como um ciclo de guerras. Mesmo aqueles países que emergiram formalmente vitoriosos de alguns conflitos se lembravam da experiência de uma forma muito semelhante à dos perdedores.

A Itália depois da Primeira Guerra, a China após a Segunda Guerra e a França depois das duas guerras poderiam servir de exemplo. E há ainda aqueles países que ganharam uma guerra, mas ‘perderam a paz’, desperdiçando as oportunidades que lhes foram concedidas pela vitória. Os aliados ocidentais em Versalhes e Israel, nas décadas que se seguiram a 1967, continuam a ser os exemplos mais reveladores.

A ameaça à civilização

A guerra não é apenas uma catástrofe por si mesma. Traz outros horrores no rastro. Os Estados e as sociedades tomados durante e após a Segunda Guerra por Hitler ou Stálin (ou por ambos, um depois do outro) vivenciaram não apenas a ocupação e a exploração mas também a degradação e a corrosão das leis e das normas da sociedade.

As próprias estruturas da vida civilizada — regulamentos, leis, professores, policiais, juí­zes — desapareceram ou assumiram um novo e sinistro significado. A guerra levava a comportamentos que julgaríamos impensáveis e dis­funcionais em tempos de paz. É a guerra, não o racismo, ou o antagonismo étnico, ou o fervor religioso, que leva a atrocidades.

A guerra — a guerra total — foi a condição crucial para a criminalidade em massa da era moderna, dos campos de concentração aos vários casos de genocídio. Os americanos, talvez numa situação única no mundo, vivenciaram o século 20 sob uma ótica bem mais positiva. Não foram invadidos e, comparados a outros grandes países que combateram no século 20, perderam relativamente poucos soldados em batalha.

Na Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos sofreram pouco menos de 120.000 mortes em com­bate. Para o Reino Unido, a França e a Alemanha, os números são, res­pectivamente, 885.000, 1,4 milhão e cerca de 2 milhões.

Na Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos perderam 420.000 homens em combate; o Japão perdeu 2,1 milhões; a China, 3,8 milhões; a Alemanha, 5,5 milhões; e a União ­Soviética perdeu um número estimado em 10,7 milhões. Nas baixas civis, as que deixam a marca mais indelével na memória nacional, o contraste é gritante.

Só na Segunda Guerra os britânicos sofreram 67.000 mortes; a França, 270.000; a Alemanha, 1,8 milhão; a Polônia, 5,5 milhões; e a União Soviética, um número estimado em 11,4 milhões. Na China, o número excedeu 16 milhões. As perdas americanas (excluída a Marinha Mercante) nas duas guerras foram de menos de 2.000 mortos.

Por isso, os Estados Unidos são hoje a única democracia avançada na qual figuras públicas glorificam e exaltam os militares, um sentimento familiar à Europa de antes de 1945. Tendo a história do século 20 como parâmetro, parece totalmente errada a ideia de que são os americanos que entendem de guerra, enquanto os europeus não passariam de ingênuos, com suas fantasias pacifistas.

Muito pelo contrário. São os europeus (juntamente com os asiáticos e os africanos) que com­preen­dem muito bem o significado de um conflito armado. Para Washington, a guerra é a primeira opção. Para o resto do mundo desenvolvido, ela se tornou o último recurso. A ignorância a respeito do século 20 também leva a erros na identificação do inimigo. Temos bons motivos para nos ocuparmos agora com o terrorismo.

Porém, antes de nos lançarmos numa guerra de 100 anos para erradicar o terrorismo da face da Terra, consideremos o seguinte. Terroristas não constituem um fenômeno novo.

Houve terroristas sionistas explodindo mercados árabes na Palestina antes de 1948; terroristas irlandeses financiados por americanos na Londres de Margaret Thatcher; terroristas mujahidins armados pelos Estados Unidos nos anos 80 no Afeganistão e muitos outros ao longo da história.

Dizer que o terrorismo hoje é diferente por expressar um ‘choque de culturas’, imbuído de uma combinação tóxica de religião com política autoritária, baseia-se numa leitura equivocada do século 20.

Também é um insulto à inteligência comparar um punhado de assassinos, desligados de qualquer Estado e movidos pela religiosidade, com a ameaça representada no século 20 pelos ricos e modernos Estados dominados por partidos totalitários comprometidos com a agressão a outros países e com o extermínio.

Se Osama bin Laden fosse verdadeiramente comparável a Hitler ou a Stálin, teríamos realmente reagido ao 11 de Setembro inva­dindo… Bagdá? Mas o mais sério erro consiste em confundir a forma com o conteúdo. Ou seja, definir todos os vários terroristas e terrorismos de nosso tempo, com seus objetivos contrastantes e às vezes conflitantes, tomando como critério apenas suas ações.

A leviandade com que nos convencemos de que estamos em guerra com ‘extre­mistas’ que habitam um distante ‘Islamistão’, que nos odeiam pelo que somos e que procuram destruir ‘nosso modo de vida’ é um indício de que esquecemos a lição do século 20: a leviandade com que o medo e o dogma podem nos levar a demonizar outros, a negar a eles o sentido comum de humanidade ou a proteção de nossas leis, e a fazer com eles coisas inomináveis.

De que outro modo podemos explicar nossa atual indulgência em relação à prática da tortura? Pois indulgentes certamente somos. Até bem recentemente era a prática da tortura que distinguia as democracias das ditaduras. Nós nos vangloriamos de ter derrotado o ‘império do mal’ dos soviéticos.

Mas talvez devêssemos ler as memórias dos que sofreram nas mãos daquele império e, depois, comparar com os abusos degradantes que suspeitos de terrorismo têm sofrido no Ocidente. Será que eles são tão diferentes assim? Longe de fugirmos do século 20, precisamos, acredito, olhar para trás e examiná-lo novamente com um pouco mais de atenção.

Precisamos aprender de novo — ou quem sabe pela primeira vez — como a guerra embrutece e degrada tanto os vencedores quanto os perdedores, e o que acontece conosco quando, depois de termos travado impensadamente uma guerra sem dispor de um bom motivo, somos encorajados a exagerar e demonizar nossos inimigos para justificar a continuação da guerra por tempo indefinido.”

Caixa volta a oferecer financiamento de imóveis mais barato

Agência da Caixa

 A Caixa Econômica Federal voltou a oferecer a partir desta semana a opção de financiamento de imóveis de até 400 mil reais pela linha Pró-Cotista FGTS, crédito que só não é mais barato do que o oferecido pelo banco para quem estiver enquadrado no programa Minha Casa Minha Vida. 

A Pró-Cotista voltou a ser operada pelo banco logo após o anúncio de que o Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) faria um aporte de 9,5 bilhões de reais para a linha de financiamento imobiliário este ano. A medida foi anunciada no dia 26 de fevereiro.

Segundo a Associação Brasileira dos Mutuários da Habitação (ABMH), a Caixa havia suspendido os financiamentos da linha desde o final de janeiro por falta de recursos.

A ABMH recebeu reclamações de mutuários que tiveram o financiamento pela Pró-Cotista aprovado pela Caixa, mas não foram chamados para assinar o contrato. Segundo a Caixa, mutuários que já tiveram o crédito aprovado na linha terão prioridade na contratação do crédito agora.

A Pró-Cotista é uma oportunidade para famílias de classe média que não se enquadram nos limites de financiamento da habitação popular adquirirem imóveis novos e usados em um momento no qual o crédito está mais caro e escasso.

No ano passado, o orçamento da Pró-Cotista atingiu 6 bilhões de reais. Este ano, os recursos para a linha devem chegar a 9,5 bilhões de reais. O aumento dos valores se deve à análise de que a procura poderia ser maior do que o valor do orçamento, de acordo com o secretário-executivo do Conselho Curador do FGTS, Quênio Cerqueira, durante o anúncio do novo aporte.

Enquanto a Caixa afirma que continua a financiar unidades de até 400 mil reais (o limite foi anunciado no ano passado), o Banco do Brasil aponta que, desde o dia 5 de janeiro deste ano, recebeu sinal verde do Conselho Curador do FGTS para que voltasse a financiar imóveis de até 750 mil reais em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, e 650 mil reais para os demais Estados, limites vigentes antes da modificação anunciada no ano passado.

Condições

A linha Pró-Cotista FGTS cobra taxas de juros menores por conta de um subsídio oferecido aos trabalhadores que têm recursos aplicados no FGTS, que geralmente são empregados formais, com carteira assinada e que realizam obrigatoriamente contribuições mensais ao fundo, equivalentes a 8% do valor do salário. 

Também realizam contribuições ao FGTS os trabalhadores rurais, temporários e atletas profissionais. Para empregados domésticos, a contribuição ao FGTS é opcional.

A linha que utiliza recursos do FGTS é oferecida apenas pelo Banco do Brasil e pela Caixa. A taxa de juros aplicada a tomadores que não têm relacionamento com o banco, a chamada taxa balcão, é de 8,85% ao ano na Caixa e de 9% ao ano no Banco do Brasil. Caso o comprador tenha relacionamento com a Caixa, os juros cobrados na Pró-Cotista podem ser ainda menores e chegar a 7,85% ao ano.

Em outros tipos de financiamentos, a taxa cobrada para quem não tem relacionamento com o banco sobe para 9,90% ao ano na Caixa e 11,29% ao ano no BB. Ambos os bancos reajustaram as taxas de juros de financiamentos ao longo do ano passado, enquanto os juros cobrados na Pró-Cotista permaneceram inalterados.

Além de cobrar taxas de juros mais acessíveis do que as praticadas em outros financiamentos, a linha permite financiar até 90% do valor do imóvel no Banco do Brasil e até 80% na Caixa, seja ele novo ou usado.

No ano passado, a Caixa passou a emprestar no máximo 50% do valor da unidade para aquisição de imóveis usados que estejam enquadrados no Sistema Financeiro de Habitação (SFH). Ou seja, além do programa Minha Casa Minha Vida, a linha Pró-Cotista é a única alternativa para quem pretende comprar imóveis usados na Caixa, mas não tem capacidade de pagar o equivalente a 50% do valor do imóvel como entrada.

O prazo máximo de financiamento oferecido na Pró-Cotista em ambos os bancos públicos é de até 360 meses.

Requisitos

Para ter acesso à Pró-Cotista FGTS, é necessário ter contribuído ao FGTS por mais de três anos, consecutivos ou não, na mesma empresa ou em empresas diferentes.

Caso o tomador se enquadre nessa exigência, a conta vinculada ao fundo deve estar ativa, ou seja, o trabalhador deve estar empregado e realizar atualmente contribuições mensais ao FGTS.

A linha só é concedida para tomadores com contas inativas - que estejam desempregados ou que não estão contribuindo ao FGTS por estar trabalhando sob outro regime de trabalho, por exemplo - caso o saldo do FGTS seja equivalente a pelo menos 10% do valor do imóvel.

Não há restrição com relação à renda familiar dos compradores, desde que o imóvel financiado não tenha valor maior do que 400 mil reais.

Contudo, o comprador não pode ter outro financiamento imobiliário e nem a posse de outro imóvel residencial urbano, concluído ou em construção, na mesma cidade, em municípios limítrofes ou na região metropolitana da cidade onde vive. Preenchidos os requisitos, o uso do saldo do FGTS no financiamento é opcional.

Oportunidade

Para quem se enquadra nas condições da linha Pró-Cotista, Marcelo Prata, diretor do Canal do Crédito, recomenda aproveitar a oportunidade. “É o dinheiro mais barato que esse comprador consegue atualmente.”

Como as restrições de crédito em outras linhas reduzem a demanda por casas e apartamentos, o momento pode ser favorável para a compra do imóvel, pois amplia a possibilidade de negociação de descontos nos preços das unidades, diz Prata.

Por outro lado, financiar o imóvel agora não é indicado caso o comprador esteja inseguro em relação à manutenção do seu emprego nos próximos meses.

Nesse caso, quem não tem reservas financeiras para suportar o pagamento das prestações da dívida diante de um eventual desemprego, pode ser melhor adiar a compra e juntar um valor maior para dar como entrada e reduzir o débito.

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